Cirurgia OLIF: artrodese lombar por via oblíqua
OLIF 25 e OLIF 51, com fixação percutânea, muitas vezes sem mudar de posição
A OLIF foi indicada como opção de tratamento para a sua coluna lombar. Este guia explica o que é a cirurgia, para quem ela serve, como é feita, quais são os riscos e como é a recuperação, para que você tome sua decisão com segurança e saiba o que esperar em cada etapa.
O que é a OLIF?
OLIF é a sigla em inglês de artrodese intersomática lombar por via oblíqua. Artrodese é a fusão de duas vértebras: o disco desgastado é retirado e substituído por um espaçador preenchido com enxerto ósseo, que com o tempo une as vértebras num bloco firme.
O diferencial está no caminho. Em vez de chegar ao disco pelas costas, afastando a musculatura, o cirurgião chega pela lateral do abdome, por um corredor natural entre os grandes vasos e o músculo psoas, sem cortar a musculatura das costas e sem atravessar o psoas.
Os dois acessos
- OLIF 25: para os discos entre L1 e L5. O acesso passa à frente do músculo psoas, o que protege os nervos que correm dentro dele.
- OLIF 51: para o disco L5-S1, o último da coluna, que fica entre os vasos da pelve. Com o paciente ainda de lado, o disco é acessado pela frente, entre esses vasos.
Depois do espaçador, a coluna é fixada com parafusos colocados por pequenos cortes nas costas (fixação percutânea). Quando possível, isso é feito na mesma posição, sem virar o paciente na mesa — a chamada cirurgia em posição única.
Para quem é indicada?
- Listese (escorregamento de uma vértebra) com dor ou compressão de nervos.
- Degeneração do disco com dor lombar incapacitante, quando o tratamento sem cirurgia falhou.
- Escoliose degenerativa e desequilíbrio do tronco no adulto.
- Estreitamento do forame por perda de altura do disco.
- Desgaste do nível vizinho a uma artrodese antiga, pseudoartrose e revisões.
Em geral, a cirurgia é considerada depois de pelo menos 3 a 6 meses de tratamento bem conduzido sem cirurgia, a menos que haja fraqueza progressiva ou outra urgência.
Como é a cirurgia
- Anestesia e posição: anestesia geral, com você deitado de lado. A monitorização dos nervos acompanha toda a cirurgia.
- Acesso: uma incisão de poucos centímetros na lateral do abdome. O cirurgião afasta, sem cortar, os músculos da parede e chega à coluna por trás do peritônio. O intestino não é aberto.
- Disco e espaçador: o disco desgastado é retirado e um espaçador grande, com enxerto, é colocado no lugar, controlado por raio X.
- Fixação: os parafusos são colocados por pequenos cortes nas costas, guiados por imagem, de preferência sem mudar de posição.
A duração varia com o número de níveis, geralmente de 2 a 4 horas.
Vantagens e limitações
- Músculos das costas preservados e menos sangramento.
- O espaçador grande devolve a altura do disco, abre os forames e alivia os nervos de forma indireta, além de corrigir a curvatura.
- A posição única encurta a cirurgia e o tempo de anestesia.
- Limitação: quando o estreitamento do canal é muito intenso ou causado por osso, pode ser preciso também uma descompressão direta pelas costas.
- Cirurgias abdominais extensas, a posição dos vasos ou osteoporose importante podem tornar outra via mais segura.
O que os estudos mostram
- Descompressão indireta: ao devolver a altura do disco, o espaçador amplia o espaço dos nervos sem mexer no canal. Estudos com tomografia e ressonância mostraram aumento médio de cerca de 20% a 30% na área do canal e de 20% a 40% nos forames.
- Fusão: numa série americana com 137 pacientes e 340 níveis operados, a tomografia mostrou fusão em 97,9% dos níveis aos 6 meses.
- Posição única: uma revisão de vários estudos (2022) mostrou cirurgias mais curtas (em média cerca de 2 horas, contra 3 horas quando o paciente é virado) e internação menor (cerca de 3 dias, contra 6 a 7), com taxa de complicações semelhante.
- À frente do psoas: comparada à via que atravessa o músculo psoas, a via oblíqua teve bem menos dormência na coxa (cerca de 9% contra 22%) e menos fraqueza para levantar a perna (cerca de 6% contra 20%), quase sempre passageiras.
Riscos
Toda cirurgia tem riscos. Os números abaixo vêm de grandes revisões e séries publicadas e servem como referência. O seu risco individual depende da sua saúde, dos níveis operados e da anatomia, e será conversado na consulta.
Mais comuns, geralmente passageiros
- Dormência, formigamento ou fraqueza na coxa do lado do acesso: em cerca de 4% a 9%. Costuma melhorar em semanas a poucos meses.
- Intestino lento (íleo) nos primeiros dias: cerca de 3%.
- Pé mais quente de um lado, por irritação da cadeia simpática: cerca de 5%. Em geral não causa dor e tende a se equilibrar.
- Afundamento do espaçador na vértebra: de 5% a 12%, mais comum com osteoporose. Muitas vezes não dá sintomas.
- Abaulamento na parede do abdome, por fraqueza muscular passageira: cerca de 1%.
Raros, mas importantes
- Lesão de vaso sanguíneo durante o acesso: cerca de 2%. Quase sempre é reparada na própria cirurgia.
- Infecção (cerca de 2%), trombose, falha da fusão (pseudoartrose) e necessidade de nova cirurgia (cerca de 2%).
- Lesão do ureter, o canal que leva a urina do rim à bexiga: muito rara, menos de 1 em 1.000.
- Num estudo japonês com 155 pacientes que contou todas as intercorrências, inclusive as passageiras e sem sintomas, quase metade teve alguma, mas danos permanentes ocorreram em cerca de 2%, e as complicações diminuíram com a experiência da equipe.
Antes da cirurgia
- Medicamentos: informe tudo o que usa. Anticoagulantes, antiagregantes (AAS, clopidogrel e outros), anti-inflamatórios, alguns remédios para diabetes e fitoterápicos podem precisar de ajuste — nunca suspenda por conta própria. Veja o guia Antes da cirurgia: tabagismo e medicamentosÁrea do paciente.
- Cigarro: pare de fumar, inclusive cigarro eletrônico, de preferência semanas antes. O cigarro dificulta a fusão óssea e aumenta o risco de infecção.
- Exames: faça os exames pedidos e a avaliação pré-anestésica. Leve todos os exames de imagem no dia da internação.
- Osteoporose: se você tem ou pode ter osso fraco, ela será avaliada antes. Às vezes é preciso tratá-la primeiro.
- Intestino: siga a orientação de dieta leve e, se indicado, de preparo intestinal na véspera.
- Avise se tiver febre, gripe, infecção urinária, ferida na pele ou qualquer problema de saúde nos dias anteriores.
Internação e recuperação
Em casa
- Caminhe todos os dias, aumentando aos poucos. Evite ficar muitas horas seguidas sentado ou deitado.
- Nas primeiras 6 semanas, evite carregar peso, dobrar o tronco repetidamente e fazer torções. Para pegar algo no chão, dobre os joelhos.
- Mantenha o curativo limpo e seco e siga as orientações de troca. Os pontos, quando não absorvíveis, saem entre 10 e 15 dias.
- Dirigir: em geral após 2 a 4 semanas, sem analgésicos fortes e com segurança para frear.
- Em geral não é preciso colete.
- A fisioterapia costuma começar entre 4 e 6 semanas, com foco no fortalecimento do tronco.
- Não fume. O cigarro é o principal inimigo da fusão óssea.
Perguntas frequentes
Onde ficam as cicatrizes? Uma incisão de poucos centímetros na lateral do abdome e pequenos cortes nas costas para os parafusos.
A cirurgia mexe no intestino? Não. O acesso passa por trás do peritônio, a membrana que envolve o intestino, sem abri-lo. É comum o intestino ficar mais lento por 1 ou 2 dias.
Por que a coxa pode ficar dormente? O acesso passa perto de nervos que vão para a coxa. Dormência, formigamento ou fraqueza para levantar a perna podem aparecer e, em geral, melhoram em semanas a poucos meses.
E se eu tiver osteoporose? O osso fraco aumenta o risco de o espaçador afundar. Por isso a densidade óssea é avaliada antes e, às vezes, tratada primeiro.
Quando volto ao trabalho? Trabalho de escritório, em geral entre 4 e 6 semanas. Trabalho com esforço físico, a partir de 3 meses, conforme a fusão.
Quando posso fazer esporte? Caminhada desde o início. Bicicleta e natação a partir de 6 semanas. Musculação e esportes de impacto, em geral após 3 a 6 meses.
Quando procurar atendimento
- febre acima de 38 °C, calafrios, ou vermelhidão, calor, abertura ou secreção na cicatriz;
- fraqueza nova ou que piora nas pernas, ou dormência que aumenta;
- dificuldade para urinar, perda do controle da urina ou das fezes, ou dormência na região genital ou anal;
- barriga muito inchada, vômitos repetidos ou ausência de gases e fezes por mais de 2 a 3 dias;
- dor ou inchaço na panturrilha, falta de ar ou dor no peito;
- qualquer sintoma novo que preocupe você.
Fale com a equipe ou vá ao pronto-socorro mais próximo e leve este documento. Os cuidados com a ferida estão no guia Após a cirurgia: cuidados até o retornoÁrea do paciente.
Fontes científicas
- Fujibayashi S et al. Effect of indirect neural decompression through oblique lateral interbody fusion for degenerative lumbar disease. Spine, 2015.
- Sato J et al. Radiographic evaluation of indirect decompression of mini-open anterior retroperitoneal lumbar interbody fusion. Eur Spine J, 2017.
- Woods KR et al. Technical description of OLIF25 and OLIF51 and evaluation of complication and fusion rates. Spine J, 2017.
- Mills ES et al. Single position lumbar fusion: a systematic review and meta-analysis. Spine J, 2022.
- Walker CT et al. Complications for minimally invasive lateral interbody arthrodesis: prepsoas versus transpsoas approaches. J Neurosurg Spine, 2019.
- Spiessberger A et al. A comparison of complications between mini-open prepsoas and transpsoas approaches: a meta-analysis. Clin Spine Surg, 2020.
- Abe K et al. Perioperative complications in 155 patients who underwent oblique lateral interbody fusion surgery. Spine, 2017.
- Silvestre C et al. Complications and morbidities of mini-open anterior retroperitoneal lumbar interbody fusion: OLIF in 179 patients. Asian Spine J, 2012.
Não substitui a consulta. Siga sempre as orientações específicas recebidas do seu médico. Dúvidas: WhatsApp (83) 98640-5903.
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