Bloqueio epidural e radicular
Infiltração para dor que desce para a perna ou para o braço (ciática e cervicobraquialgia)
Você vai fazer, ou está avaliando fazer, um bloqueio epidural ou radicular. Este guia explica o que é o procedimento, o que esperar do resultado, quais são os riscos e como se preparar, para que você chegue tranquilo e saiba como agir depois.
O que é?
Quando uma hérnia de disco ou um estreitamento comprime uma raiz nervosa, o nervo inflama e a dor desce pelo trajeto dele: pela nádega e perna (ciática) ou pelo ombro e braço (cervicobraquialgia).
No bloqueio, um anti-inflamatório potente (corticoide) e, muitas vezes, um anestésico são aplicados com agulha fina bem perto do nervo inflamado, com a ajuda do raio X. O objetivo é desinflamar o nervo e aliviar a dor para que você consiga se movimentar, dormir e fazer a reabilitação enquanto o corpo se recupera.
As três vias de acesso
- Transforaminal (radicular): a agulha chega ao forame, a "janela" por onde a raiz sai da coluna. O medicamento fica concentrado na raiz que dói.
- Interlaminar: a agulha entra no espaço epidural pelas costas, entre duas vértebras, e o medicamento se espalha por alguns níveis.
- Caudal: a agulha entra pela parte baixa do sacro, uma via usada em casos selecionados, como após cirurgias da coluna lombar.
A via, o nível e o lado são escolhidos para o seu caso, de acordo com os sintomas, o exame e a ressonância.
Para quem é indicado?
- Dor que desce para a perna ou para o braço, causada por irritação de uma raiz nervosa (hérnia de disco ou estreitamento do forame), quando sintomas, exame físico e imagem combinam.
- Dor forte que não melhorou com remédios, ajuste de atividades e fisioterapia, ou que impede a reabilitação.
- Em alguns casos, para confirmar qual raiz é a responsável pela dor antes de planejar uma cirurgia.
Não é indicado para dor lombar ou cervical sem dor irradiada, que tem outras causas e outros tratamentos.
Como é feito?
- Conferência: a equipe confirma seu nome, o procedimento, o nível e o lado, e revisa alergias e medicamentos.
- Posição: você fica deitado de barriga para baixo (ou de lado), numa mesa com aparelho de raio X.
- Antissepsia e anestesia da pele: a pele é limpa com antisséptico e anestesiada com uma agulha fina. Você sente uma picada e um leve ardor.
- Agulha guiada por imagem: com o raio X (radioscopia), a agulha é levada até o ponto exato. Quando indicado, uma pequena quantidade de contraste confirma a posição antes do medicamento.
- Medicamento e curativo: o medicamento é aplicado devagar, a agulha é retirada e um curativo pequeno é colocado.
- Observação: você fica em observação por um curto período antes de ir para casa.
O procedimento costuma levar de 15 a 30 minutos. Avise na hora se sentir dor súbita forte, choque que não passa, tontura ou qualquer sensação estranha.
Medicamentos usados
| Medicamento ou recurso | Para que serve |
|---|---|
| Anestésico local (por exemplo, lidocaína) | Anestesia a pele e pode aliviar a dor nas primeiras horas. Também ajuda a mostrar se a raiz escolhida é a que dói. |
| Corticoide (geralmente dexametasona) | É o anti-inflamatório que desinflama o nervo. O efeito começa depois de alguns dias. Na via transforaminal, prefere-se corticoide não particulado, mais seguro. |
| Contraste radiológico, quando indicado | Mostra no raio X para onde o medicamento vai, confirmando a posição correta da agulha. |
Quando o efeito começa e quanto dura?
O que os estudos mostram
- Na ciática por hérnia de disco, a revisão Cochrane de 2020 (25 estudos, cerca de 2.500 pacientes) mostrou que o corticoide alivia a dor da perna e melhora a função, mas o ganho médio é pequeno e de curto prazo (até 3 meses). Algumas pessoas melhoram muito, e outras quase nada.
- A diretriz britânica NICE recomenda considerar o bloqueio na ciática aguda e intensa. Para a dor crônica, a diretriz do BMJ de 2025 desaconselha o uso rotineiro, enquanto sociedades de intervenção em dor discordam. Por isso a indicação é sempre individual.
- Muitas hérnias diminuem sozinhas com o tempo. O bloqueio não retira a hérnia: ele ajuda a atravessar a fase mais dolorosa enquanto o organismo se recupera.
- No canal lombar estreito com dor nas pernas ao caminhar, um grande estudo (LESS, publicado no New England Journal of Medicine) com 400 pacientes, não mostrou vantagem do corticoide sobre o anestésico sozinho após 6 semanas. Por isso, nesses casos o benefício costuma ser menor.
- Os melhores resultados aparecem quando o bloqueio é bem indicado e vem junto com a reabilitação, e não no lugar dela.
Riscos e efeitos possíveis
Mais comuns e passageiros
- Dor ou sensibilidade no local da agulha por 1 a 3 dias.
- Dormência ou fraqueza temporária na perna ou no braço por algumas horas, pelo anestésico.
- Pelo corticoide: rosto avermelhado e calor, insônia, agitação ou alteração da menstruação por alguns dias. Num estudo com mais de 16 mil procedimentos, essas reações aconteceram em cerca de 3 em cada 100.
- Em quem tem diabetes, a glicose sobe, em geral por 1 a 2 dias. Meça com mais frequência e siga a orientação médica.
Raros, mas importantes
- Punção da dura-máter, que pode causar dor de cabeça que piora em pé e melhora deitado. É rara: cerca de 2 em cada 1.000 bloqueios interlaminares.
- Infecção, sangramento ou hematoma, e reação alérgica.
- Lesão neurológica grave, que é muito rara. A agência americana FDA alertou para esse risco em 2014, sobretudo nas injeções cervicais. Raio X, contraste e corticoide não particulado são cuidados usados para reduzi-lo.
Depois do procedimento
- Não dirija no dia. Se a perna estiver dormente ou fraca, caminhe só com apoio até a sensação voltar ao normal.
- No dia, faça repouso relativo. A partir do dia seguinte, retome caminhadas e atividades leves conforme a dor permitir. Esforço intenso e carga pesada devem esperar alguns dias.
- Você pode tomar banho normalmente no dia seguinte. Retire o curativo em 24 horas.
- Mantenha a fisioterapia e os exercícios orientados: é a melhora da dor que permite reabilitar.
- Anote como a dor evolui nos primeiros 15 dias e traga essa informação no retorno.
Preparo
- Medicamentos: traga a lista de tudo o que usa, com doses. Anticoagulantes e antiagregantes (varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana, AAS, clopidogrel e outros), anti-inflamatórios, remédios para diabetes e fitoterápicos podem precisar de ajuste — nunca suspenda por conta própria. Os prazos de referência estão no guia Bloqueios anestésicos: preparo e medicações, e a decisão final é tomada com você e, quando preciso, com seu cardiologista.
- Avise a equipe se tiver febre, gripe, infecção, ferida na pele perto do local, alergia (a anestésico, iodo, contraste ou látex), diabetes, imunossupressão, marca-passo ou cardiodesfibrilador, ou se houver possibilidade de gravidez.
- Jejum e acompanhante: siga as orientações recebidas. Venha com um acompanhante adulto, porque você não deve dirigir no dia.
- Leve documento, carteira do convênio e seus exames de imagem (ressonância, tomografia).
Perguntas frequentes
Dói? Você sente a picada da anestesia da pele e, às vezes, uma pressão ou um choque rápido quando a agulha chega perto do nervo. A maioria das pessoas tolera bem, sem sedação.
O alívio é imediato? O anestésico pode aliviar nas primeiras horas, mas o efeito principal, do corticoide, começa depois de alguns dias.
O bloqueio cura a hérnia? Não. Ele desinflama o nervo e alivia a dor, mas não retira a hérnia. Muitas hérnias diminuem com o tempo, e o bloqueio ajuda a passar por essa fase.
Quando volto ao trabalho? Trabalhos leves, em geral no dia seguinte. Trabalhos com esforço físico, após alguns dias, conforme a dor.
Posso repetir? Pode, se o primeiro trouxe benefício e o problema voltar. Costuma-se respeitar um intervalo de algumas semanas e limitar o número de aplicações por ano, por causa do corticoide.
E se não melhorar? A resposta ajuda a decidir o próximo passo: continuar a reabilitação, mudar o tratamento ou, em alguns casos, considerar cirurgia.
Quando procurar atendimento
- fraqueza nova ou que piora nas pernas ou nos braços, ou dificuldade nova para andar;
- dormência na região genital ou anal, dificuldade para urinar ou perda do controle da urina ou das fezes;
- febre ou calafrios, ou vermelhidão, calor, inchaço ou secreção no local da agulha;
- dor de cabeça forte que piora ao ficar em pé e melhora ao deitar, ou com febre e rigidez na nuca;
- falta de ar, inchaço no rosto ou na língua, desmaio ou dor no peito.
Fale com a equipe ou vá ao pronto-socorro mais próximo e informe o procedimento feito e a data.
Fontes científicas
- Oliveira CB et al. Epidural corticosteroid injections for lumbosacral radicular pain. Cochrane Database Syst Rev, 2020.
- Friedly JL et al. A randomized trial of epidural glucocorticoid injections for spinal stenosis (LESS). N Engl J Med, 2014.
- NICE NG59. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management. National Institute for Health and Care Excellence.
- Busse JW et al. Commonly used interventional procedures for non-cancer chronic spine pain: a clinical practice guideline. BMJ, 2025.
- El-Yahchouchi CA et al. Adverse event rates associated with transforaminal and interlaminar epidural steroid injections. Pain Med, 2016.
- Even JL et al. Effects of epidural steroid injections on blood glucose levels in patients with diabetes mellitus. Spine, 2012.
- FDA Drug Safety Communication: epidural corticosteroid injections and rare serious neurologic problems, 2014.
- Narouze S et al. Interventional spine and pain procedures in patients on antiplatelet and anticoagulant medications. Reg Anesth Pain Med, 2018.
Não substitui a consulta. Siga sempre as orientações específicas recebidas do seu médico. Dúvidas: WhatsApp (83) 98640-5903.
© 2026 Dr. Francisco Moura Neto. Conteúdo original; a reprodução, total ou parcial, só é permitida com citação da fonte e link para esta página.
Leia também
Bloqueios anestésicos: preparo e medicações
Preparo, medicações, sinais de alarme e retorno às atividades
ProcedimentosBloqueio facetário e de ramo medial
Teste com anestésico para dor localizada nas costas ou no pescoço
ProcedimentosRadiofrequência facetária (rizotomia)
Tratamento por calor dos nervos das facetas, para dor crônica nas costas ou no pescoço